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Foto: Reuters

*Colaboração da Agência Conversion

Seja duelar contra os gigantes Boca Juniors e River Plate em seus estádios, em Buenos Aires, enfrentar a altitude de La Paz contra os grandes clubes bolivianos ou jogar contra os tradicionais times uruguaios no Centenario, em Montevidéu, a experiência futebolística sul-americana quase sempre passa pelas suas capitais.

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A supremacia de equipes dessas metrópoles é tão grande que, em alguns casos, os seus governos municipais criam passeios turísticos temáticos pelas famosas canchas, como é o caso da capital portenha, cujo barateamento das passagens aéreas internacionais aumentou o número de visitantes.

Considerando todas as edições da Copa Libertadores da América, 49 títulos foram conquistados por clubes de futebol de cidades grandes de seus países. O Independiente, maior campeão do torneio, com sete conquistas, é de Buenos Aires, assim como o Boca, que possui seis troféus. O Peñarol (cinco títulos) e o Nacional (três títulos), do Uruguai, e o Olímpia, do Paraguai (três títulos), também são representantes das capitais de seus países.

As poucas exceções são o Estudiantes, campeão quatro vezes da copa internacional, que representa a cidade de médio porte argentina de La Plata, o Santos, brasileiro que venceu o campeonato três vezes e que também é sediado em um município menor, e o surpreendente Once Caldas, de Manizales, na Colômbia, campeão da Libertadores de 2004. São, portanto, oito títulos fora do eixo das grandes capitais.

A Copa Sul-Americana, alternativa à Libertadores, é mais “democrática” geograficamente: disputada anualmente desde 2002, em 10 oportunidades os campeões saíram de capitais sul-americanas, mas em outras cinco os times vencedores vieram de cidades menores: a Chapecoense, última campeã, representa um município de 160 mil habitantes do interior de um pequeno estado do Sul brasileiro.

Feito semelhante talvez apenas tenha sido o do Cienciano, sediado em Cuzco, cidade histórica peruana: em 2003, o time passou por São Paulo e o poderoso River Plate para ser campeão da Copa Sul-Americana longe da sua cidade de origem, em Arequipa, porque o estádio municipal não tinha capacidade para uma final continental. As histórias desses três clubes fora dos eixos principais do futebol sul-americano são contadas abaixo:

Once Caldas – Campeão da Copa Libertadores de 2004

Manizales, Colômbia

300 km de Bogotá

Em uma Libertadores repleta de times copeiros, como os brasileiros Santos, São Paulo e Cruzeiro, os argentinos Boca Juniors e River Plate, o equatoriano LDU e o uruguaio Nacional, além do tradicional América do México, foi um pequeno e desconhecido time que conseguiu chegar ao título, superando alguns dos principais clubes do continente: o Once Caldas, da Colômbia.

A história daquela conquista começou um ano antes, em 2003, quando o time de Manizales, beneficiado pela mudança nas regras do campeonato nacional, venceu o torneio de abertura da Colômbia, garantindo a vaga para o torneio continental pela terceira vez em sua história. Antes, o Once Caldas havia ganhado um troféu nacional apenas no longínquo ano de 1950, contra o tradicional Millonarios.

Até 2004, o time havia enfrentado poucas vezes os grandes clubes continentais: venceu o Santos pela Copa Conmebol em 1998 por 2 a 1, em sua casa, goleou o River Plate por 4 a 1 em Manizales durante a primeira fase da Libertadores de 1999 e ganhou do Flamengo por 1 a 0 também em sua cidade na primeira fase da copa de 2002. Quando atuou fora contra as mesmas equipes, no entanto, sempre perdeu.

Em 2004, com um time que girava em torno do volante Viáfara (Portsmouth, Real Sociedad e Southampton) e que também tinha o meia Darío Velásquez e o atacante Valentierra, todos da seleção colombiana àquela época, o Once Caldas passou pelo Santos de Diego e Robinho nas quartas de final, São Paulo na semifinal e, nas duas partidas decisivas, segurou o Boca Juniors de Tévez e Schelotto na Bombonera e venceu nos pênaltis em Manizales. A imprensa sul-americana se surpreendeu com o pequeno time do interior da Colômbia que enfrentaria o Porto, então campeão europeu, na Copa Intercontinental, no Japão, daquele ano – perderia o título.

Um dos principais fatores da conquista do Once Caldas foi o estádio Palogrande, construído pelo governo de Manizales para receber os jogos do time. Com capacidade para 40 mil torcedores, viu as vitórias sobre Santos (1 a 0) e São Paulo (2 a 1) nas fases eliminatórias.

A cidade, cujas camadas de gerações jamais havia visto o time vencer um campeonato sequer, nunca mais voltou a viver tantas glórias. À época já com pouco mais de 300 mil moradores, ela era mais acostumada com tragédias naturais do que vitórias do time local: deslizamentos de terra, três grandes incêndios e as atividades do vulcão Nevado del Ruiz, próximo ao perímetro urbano, sempre marcaram a história de Manizales. Futebol, na Colômbia, pelo menos até 2004, se limitava ao eixo Bogotá-Medellín-Cali.

Cienciano – Campeão da Copa Sul-Americana de 2003

Cuzco, Peru

1.076 km de Lima

Eliminado de forma surpreendente pelo Once Caldas em 2004, o Santos já vinha de uma saída traumática de torneio continental um ano antes, contra o Cienciano, do Peru. Foi o único time brasileiro no caminho da primeira equipe peruana a conquistar um título sul-americano na história, na Copa Sul-Americana de 2003.

O título do Cienciano começou em 2001, durante o centenário do clube e ano em que venceu seu primeiro título nacional da história, o Clausura. Classificado pela primeira vez para a Libertadores do ano seguinte, não conseguiu passar da primeira fase em um grupo que tinha o Grêmio como cabeça-de-chave, mas a campanha lhe colocou na Copa Sul-Americana do ano seguinte.

Passou por Alianza Lima e Universidad do Chile antes de enfrentar a equipe brasileira nas quartas de final. Na Vila Belmiro, em Santos, empatou em 1 a 1 com um gol contra do zagueiro Alex, mas se classificou ao vencer o Peixe por 2 a 1 em Cuzco, com dois gols do craque do time: o veterano atacante Germán Carty. Ele ainda faria gols nas semifinais contra o Atlético Nacional de Medellín e na primeira partida da final, contra o River Plate, no Monumental, em Buenos Aires, terminada em 3 a 3.

Cuzco, a cidade que sedia o clube e que possui apenas 300 mil habitantes, não tinha um estádio com as capacidades exigidas pelas regras do torneio para receber uma final continental, fazendo com que a Conmebol transferisse o jogo decisivo para Arequipa – que tem quase 1 milhão. O Cienciano venceu por 1 a 0 e fez história: jamais um clube peruano havia ganhado um título fora do país. Portanto, o time não apenas desbancou os grandes clubes de Lima – Universitário e Alianza – como o fez com maestria: vencendo um grande do continente na final. O grande destaque do time era o atacante Mostto, que foi vendido em 2007 ao Barnsley, da Inglaterra.

Um ano depois, o estádio Inca Garcilaso de la Vega, em Cuzco, teve sua capacidade aumentada para 40 mil espectadores, recebendo até um jogo da Copa América de 2004. Naquele ano, o Cienciano ainda venceria o Boca Juniors de Tévez nos pênaltis, em Miami (EUA), pela Recopa Sul-Americana. A equipe ainda venceria outros títulos nacionais, mas foi rebaixada para a segunda divisão peruana no ano passado.

Estudiantes – Campeão do mundo (1969) e quatro vezes campeão da Copa Libertadores da América (1968, 1969, 1970, 2009)

La Plata, Argentina

60 km de Buenos Aires

Ao contrário do Cienciano e do Once Caldas, o Estudiantes de La Plata, da Argentina, não necessita de apresentações. Quarto maior campeão da Copa Libertadores da América com quatro títulos (1968, 1969, 1970 e 2009), foi o primeiro e um dos únicos times argentinos a romper a hegemonia dos gigantes do país a nível nacional e internacional. Mais do que isso, é um dos poucos clubes do mundo que já venceu um torneio mundial: passou pelo Manchester United, da Inglaterra, na Copa Intercontinental de 1968.

Naquele ano, o Estudiantes venceu a final da Libertadores da América contra o Palmeiras após três partidas decisivas – a última em Montevidéu, no Uruguai. Nos anos seguintes, venceria os dois times da capital uruguaia nas finais: Nacional, em 1969, e Peñarol, em 1970. À época, um dos destaques do time era o atacante Juan Ramón Verón, pai de Sebastián Verón, ídolo do clube nos anos 1990 e 2000.

O clube argentino, no entanto, disputou 39 torneios internacionais em sua história, sendo quatro deles intercontinentais (o último foi a derrota por 2 a 1 para o Barcelona, em 2009, pelo Mundial de Clubes da FIFA, no Japão). Entre os seus treinadores, destacam-se Carlos Bilardo (1982), Diego Simeone (2006) e Alejandro Sabella (2009).

Os feitos do Estudiantes são ainda mais contrastantes por causa da cidade onde está situado: La Plata, a cerca de 60 quilômetros de Buenos Aires e menor que as interioranas Córdoba, Rosário e Mendoza, apesar de sua grande população – cerca de 700 mil pessoas. Uma explicação possível é que, por conta das lutas políticas argentinas no século XIX, o município foi fundado para substituir Buenos Aires como capital da província de mesmo nome quando esta se tornou um distrito federal.

Durante alguns anos da década de 1950, chegou a ser rebatizada como Ciudad Eva Perón, em homenagem à primeira-dama morta, mas voltou a ser chamada de La Plata em 1955. O crescimento da cidade teve seu ápice nesta mesma época, mas viveu uma expansão na década de 1980.

Apesar disso, o estádio do Estudiantes – e da cidade – tinha capacidade para apenas 22 mil pessoas até 2007, quando foi demolido para sua reconstrução. O novo Jorge Luis Hirschi deve ficar pronto em maio de 2018 e abrigar 25 mil pessoas sentadas. Paralelo a ele, o governo argentino inaugurou de forma incompleta em 2003 o Estádio Ciudad de La Plata, considerado um dos mais modernos da América Latina em 2011, quando as obras terminaram para a Copa América daquele ano.

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